Mais do que um livro de receitas

“À descoberta da gastronomia regional dos Açores”

 

Hélio Vieira

 

Graças à mão generosa de um amigo, tive a possibilidade de acolher “À descoberta da gastronomia regional dos Açores – Livro de receitas”, editado no final o ano que há pouco terminou (dezembro de 2022), pela estampa da editora Predicado Inclinado, com sede na Lagoa (ilha de São Miguel).

Apesar do manifesto interesse que tenho por tudo o que se edita nos Açores sobre gastronomia, confesso que desconhecida esta publicação que surge numa altura em que têm aparecido algumas outras sobre a mesma temática.

Escrevi, há quase três anos, que as publicações sobre a gastronomia açoriana eram escassas nessa altura, sendo então honrosas exceções os livros de referência de Augusto Gomes (quatro) ou os de Zita Lima e António Cavaco.

Talvez porque a gastronomia açoriana aspira a chegar a outra dimensão, algumas das publicações mais recentes não se limitam a ser apenas repositórios de receitas, apresentando conteúdos mais aprofundados e alguns ensaios de investigações académicas com os devidos créditos científicos.

Quando me chegou, recentemente, às mãos “À descoberta da gastronomia regional dos Açores – Livro de receitas”, logo percebi que o que era proposto não se resumia apenas a uma compilação de receitas tradicionais ou de pratos inspirados nos produtos regionais das nossas ilhas.

Para além dessas tais receitas tradicionais, algumas delas reinterpretadas por chefs, pode-se encontrar em “À descoberta da gastronomia regional dos Açores – Livro de receitas”, alguns excelentes textos da autoria de Madalena San-Bento.

Estamos perante um livro que, não sendo de um único autor, está muito enriquecido com uma abordagem de escrita arejada e contemporânea sobre a gastronomia açoriana.

Numa espécie de prefácio com o título “Apetite”, destaca-se, logo no início, em letras em corpo mais ampliado: “Não há memória mais perdurável do que a dos cheiros e sabores”.

Talvez para que o leitor saiba ao que vai, esse mesmo texto realça: “Colecionadores de memórias, os açorianos tiveram uma eternidade para compor o seu pantagruel, com centenas de contributos: Na volta das rotas do novo mundo, a partir do século XVI, os Açores, enorme jangada no meio do Atlântico, paragem privilegiada para o refresco das naus, preparavam-se para absorver um mundo de paladares, ao qual daria forma de modo marginal”.

Segue-se outro texto, um pouco mais extenso, com o título “Gastronomia açoriana contemporânea”, em que se faz o roteiro do que muito e bom que se produz nestas terras abençoadas. “Da deliciosa fruta”, seguimos para os “Tubérculos saborosos”, passando pela horta “Legumes cheirosos e das ervas aromáticas”, indo ao até ao “Esplêndido leite e seus derivados” ou à “Carne suculenta”, bem como, ao “Peixe” e ainda aos “Pães proverbiais”.

Revistados os produtos da terra e o mar destas ilhas, outro texto aborda o “100% natural”, dando nora que existem cerca de duas centenas de produtos biológicos nos Açores.

Após percorrer quase três dezenas de receitas (entradas, sopas, peixe, carne e sobremesas), chegamos ao posfácio da autoria de Renato Cunha, onde em apenas três parágrafos se apontam rotas seguras a trilhar pela gastronomia açoriana: “Agrada-me a simplicidade da gastronomia açoriana. Despida de erudito receituário, tem no produto o seu trunfo e um terroir que influencia e deixa influenciar-se”, escreveu Renato Cunha nas primeiras linhas do seu texto para finalizar da seguinte forma: “Por isso, é tão vasto o património genético e gastronómico do arquipélago, tão bem retratado neste livro, mas sem fechar portas para o muito que ainda há por descobrir”.

De facto, parece que é este o caminho. Saibamos percorre-lo!

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